Como funciona a cirurgia robótica
Durante o procedimento, o cirurgião opera sentado em um console, visualizando o campo em imagem 3D com ampliação de até 10×. Os instrumentos — inseridos por pequenas incisões no abdômen — reproduzem os movimentos das mãos com alta fidelidade, filtragem de tremores e amplitude articular superior à do punho humano. O sistema robótico não age de forma autônoma: é uma extensão do cirurgião, que permanece no controle de cada movimento.
Existem diferentes plataformas disponíveis no mercado — como Da Vinci (Intuitive Surgical) e Versius (CMR Surgical) — e a escolha depende da disponibilidade no serviço onde o paciente é operado. O que define o resultado não é apenas o sistema utilizado, mas principalmente a experiência do cirurgião com a técnica.
Quando a cirurgia é indicada
A principal indicação é o câncer de próstata localizado — quando o tumor ainda está confinado à glândula. Casos de alto risco e localmente avançados selecionados também podem se beneficiar da cirurgia, frequentemente associada à linfadenectomia pélvica estendida para avaliação dos linfonodos regionais.
A decisão leva em conta o estadiamento (T, N, M), o PSA, o escore de Gleason/ISUP e a expectativa de vida do paciente. A avaliação pré-operatória pode incluir, conforme o caso, ressonância magnética da próstata, cintilografia óssea, PET scan com PSMA e outros exames de imagem para um planejamento mais preciso e individualizado.
Vantagens em relação à cirurgia aberta
- Menos sangramento: a magnificação e a precisão dos instrumentos reduzem lesões vasculares durante a dissecção.
- Menor tempo de internação: alta geralmente em 24 a 48 horas.
- Recuperação mais rápida: retorno às atividades leves em cerca de 2 a 4 semanas, contra 4 a 6 semanas da cirurgia aberta.
- Preservação nervosa mais precisa: os feixes neurovasculares ficam mais visíveis com a ampliação 3D, favorecendo a preservação da função erétil quando tecnicamente possível.
- Incisões menores: 5 a 6 pequenos orifícios no lugar de um corte longo no abdômen.
Como é o pós-operatório
O cateter uretral permanece por 7 a 14 dias após a cirurgia. A continência urinária melhora progressivamente, com auxílio de fisioterapia do assoalho pélvico iniciada ainda antes da cirurgia. Em centros com experiência em cirurgia robótica, cerca de 9 em cada 10 homens recuperam a continência ao longo do primeiro ano (sem absorvente ou apenas um de segurança); em ensaio randomizado brasileiro, o índice chegou a 95% em 18 meses.
A função erétil, quando os nervos foram preservados, pode levar até 2 anos ou mais para se recuperar. Fatores como idade, função pré-operatória e extensão da preservação nervosa influenciam diretamente o prognóstico. Medicamentos como tadalafila ou sildenafila são frequentemente prescritos no seguimento para auxiliar o processo de recuperação neurovascular.
O acompanhamento com PSA é realizado a cada 3 a 6 meses no primeiro ano para confirmar o resultado oncológico. Após a retirada da próstata, o PSA deve cair a níveis indetectáveis.
Riscos e limitações
Como toda cirurgia de grande porte, a prostatectomia robótica envolve riscos: sangramento, infecção, lesão de estruturas adjacentes, trombose venosa e as complicações funcionais já citadas — incontinência urinária e disfunção erétil. A abordagem minimamente invasiva reduz alguns desses riscos em relação à cirurgia aberta, mas não os elimina.
A decisão entre cirurgia, radioterapia ou vigilância ativa é individualizada e deve ser tomada em conjunto com o urologista, com base no perfil oncológico, nas comorbidades e nas prioridades do paciente.
Perguntas frequentes
A cirurgia robótica cura o câncer de próstata?
Quando o tumor está localizado, a prostatectomia radical tem potencial curativo. Entre 20% e 40% dos pacientes podem apresentar recidiva bioquímica (elevação do PSA) ao longo dos anos — por isso o acompanhamento com PSA é essencial. Em casos de maior risco, a radioterapia pode ser indicada logo após a cirurgia (adjuvante) ou assim que o PSA voltar a subir (resgate precoce); a escolha depende do laudo da peça e do perfil do paciente.
Vou ficar incontinente após a cirurgia?
A incontinência urinária é esperada no período imediato pós-operatório e melhora progressivamente. Em centros com experiência em cirurgia robótica, cerca de 9 em cada 10 homens recuperam a continência ao longo do primeiro ano (sem absorvente ou apenas um de segurança). A fisioterapia pélvica iniciada antes da cirurgia e mantida depois ajuda nessa recuperação.
A função erétil é preservada na cirurgia robótica?
Depende de vários fatores: idade, função erétil pré-operatória, estadiamento e se a preservação dos feixes neurovasculares foi tecnicamente possível. Quando a preservação é realizada, a recuperação pode acontecer gradualmente, mas pode levar até 2 anos ou mais. Medicamentos como tadalafila ou sildenafila podem ser prescritos no seguimento para auxiliar o processo.
Qual a diferença entre cirurgia robótica e laparoscópica convencional?
Ambas são minimamente invasivas, mas a robótica oferece visão 3D ampliada, instrumentos com maior amplitude de movimento e filtragem de tremores. Isso proporciona maior precisão, especialmente na dissecção dos feixes neurovasculares e na anastomose uretrovesical (a nova ligação entre a bexiga e a uretra) — etapas críticas para a recuperação funcional.
Quando posso retornar ao trabalho e às atividades físicas?
Atividades leves e trabalho em escritório: em geral após 2 a 4 semanas. Esforços físicos moderados: após 4 a 6 semanas. Atividades intensas: após liberação médica, em torno de 6 a 8 semanas. Dirigir só é liberado após a retirada do cateter e autorização do cirurgião.
Referências
- Cornford P et al. EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer — 2026 Update. Part I: Screening, Diagnosis, and Local Treatment with Curative Intent. Eur Urol. 2026;90(3):254–269. doi:10.1016/j.eururo.2026.04.013
- Nahas WC et al. Perioperative, Oncological, and Functional Outcomes Between Robot-Assisted Laparoscopic Prostatectomy and Open Radical Retropubic Prostatectomy: A Randomized Clinical Trial. J Urol. 2024;212(1):32–40. doi:10.1097/JU.0000000000003967
- Ficarra V et al. Systematic review and meta-analysis of studies reporting urinary continence recovery after robot-assisted radical prostatectomy. Eur Urol. 2012;62(3):405–417. doi:10.1016/j.eururo.2012.05.045
- Tourinho-Barbosa R et al. Biochemical recurrence after radical prostatectomy: what does it mean? Int Braz J Urol. 2018;44(1):14–21. doi:10.1590/S1677-5538.IBJU.2016.0656
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